Destino turístico, Ilha Grande atrai mais que o estimado em dia de vacinação em massa

RIO — Aconteceu neste sábado a vacinação em massa em Ilha Grande, um dos principais destinos turísticos do Rio de Janeiro. Ao longo do dia, 2.888 moradores com 18 anos ou mais foram imunizados com a vacina da Janssen, de dose única. Com isso, a expectativa do setor de turismo é que o fluxo de turistas aumente em breve. Considerando os residentes que tinham tomado uma dose do imunizante anteriormente, a região chegou hoje a 108,5% de sua população adulta estimada já vacinada com a primeira dose ou uma dose única. O  número se deve a uma discrepância na estimativa populacional do local, que se provou menor do que a quantidade real de habitantes, conforme informou a Secretaria municipal de Saúde de Angra dos Reis, município onde a ilha se situa. Segundo o balanço final da pasta, foram vacinadas quase 400 pessoas a mais do que o previsto.

Tendo como base o novo número total de habitantes da ilha contabilizados, 79,4% dos vacinados já estão com o esquema vacinal completo, ou seja, tomaram a segunda dose ou uma dose única. O restante aguarda a injeção de reforço.

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A Prefeitura de Angra dos Reis pretendia vacinar 2,5 mil habitantes com 18 anos ou mais. O principal objetivo do mutirão é evitar casos graves de Covid-19 na ilha, que não tem trânsito de automóveis e se situa numa região de Saúde com poucos leitos hospitalares disponíveis, a maioria no continente, acessível apenas por transporte marítimo. Além disso, Ilha Grande apresenta um grande fluxo de turistas, outro fator de vulnerabilidade para o local.

O mutirão de vacinação teve tumulto de manhã. Por volta das 10h, dentro do horário marcado para o início da campanha, residentes da ilha registraram aglomerações e confusão no posto da Casa de Cultura, que recebeu a maior parte dos moradores.

— A vacinação estava marcada para começar às 9h30, com pessoas de 39 a 35 anos. Fomos informados de que a vacina atrasou, e só começamos a receber injeção às 10h15. Além disso, a vacinação começou pelos marinheiros, que têm horário para pegar no trabalho. O resto da população só passou a ser vacinada depois disso — contou a guia turística Carolina Agustini, de 37 anos.

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Na fila para se vacinar desde a hora marcada para o início da aplicação, o guia Hans Bustos, de 39 anos, só conseguiu tomar sua dose às 10h40.

— Primeiro eles falaram que os marinheiros iam se vacinar, porque é feriado e as embarcações precisam sair. Depois, viriam as pessoas de 39 a 35 anos. Só que, na hora, embolou tudo. Eles falaram que os marinheiros que não tinham a idade certa tinham de sair. A fila foi de um lado para o outro, mudou três vezes de lugar. Até que a Vigilância Sanitária começou a distribuir senhas, e o posto começou a chamar quem tinha senha na mão. Todo mundo correu para pegar essa senha. Gente que chegou primeiro acabou se vacinando depois porque não pegou a senha a tempo — afirma o morador, que gravou o episódio em vídeo.

Em vídeo, morador se queixa de desordem na fila para injeção. Crédito: Hans Bustos

A Prefeitura de Angra dos Reis informou que o atraso aconteceu “por questões logísticas”. A grande movimentação no início da campanha levou a administração municipal a suspender o cronograma de vacinação por idade, que vinha sendo anunciado pela Secretaria de Saúde da cidade. Depois do tumulto, a campanha seguiu um fluxo, sem grandes filas. A exceção foram as aglomerações que se formaram em torno do governador Cláudio Castro, que marcou presença no evento.

Injeção de esperança

— Estávamos esperando por essa vacina para poder voltar a trabalhar — diz Hans Bustos, que chama atenção para os danos trazidos pela pandemia ao setor turístico: — Antes, o que imperava era o medo. O medo de sair na rua, de encontrar os amigos, de viajar. Agora, sentimos um pouco de mais liberdade. Parece que estamos voltando a ter opção de escolha.

Carolina Agustini e Hans Bustos são guias credenciados e moram na Ilha Grande, em Angra dos Reis Foto: Divulgação
Carolina Agustini e Hans Bustos são guias credenciados e moram na Ilha Grande, em Angra dos Reis Foto: Divulgação

Empresa de turismo de Angra dos Reis, a TurisAngra prevê um aumento do fluxo de turistas na Ilha Grande com a vacinação em massa, mas diz que ainda é cedo para traçar projeções numéricas, “pois isso depende de outros favores, como a evolução da imunização outras cidades e estados”.

Carolina Agustini acredita que, com o gradativo retorno à normalidade, Ilha Grande terá uma explosão de demanda no turismo, setor vital para a economia da região:

— Prevejo um crescimento para além do movimento pré-pandêmico. Antes da Covid, 95% dos nossos clientes eram estrangeiros. Agora, a situação se inverteu: a maioria é brasileira. Com a vacinação, tanto brasileiros quanto estrangeiros vão procurar Ilha Grande. A pandemia deixou as pessoas mais introspectivas e reflexivas, gerando preferência por lugares mais calmos.

A vacinação na Ilha Grande foi tão celebrada pelos moradores que Rodrigo Reis, de 33 anos, resolveu tomar sua dose caracterizado como o Capitão Jack Sparrow, de ”Piratas do Caribe”.

Jack Sparrow? Morador de Ilha Grande se vacinou caracterizado como personagem Foto: Divulgação
Jack Sparrow? Morador de Ilha Grande se vacinou caracterizado como personagem Foto: Divulgação

A campanha

— Nosso principal objetivo é evitar a ocorrência de casos graves na ilha, onde a questão do transporte sanitário é muito difícil, assim como o atendimento em leitos de CTI. A gente vai aproveitar essa estratégia para avaliar alguns desdobramentos: o índice de cobertura vacinal, a taxa de incidência de casos pré e pós-vacinação… — diz o secretário estadual de Saúde, Alexandre Chieppe, que acompanhou a campanha de perto.

Antes de tomar a vacina, os moradores preenchem um termo de consentimento de participação num exame sorológico a ser realizado daqui a 30 dias, parte de um estudo conduzido pela Secretaria muncipal de Saúde de Angra dos Reis, pela Secretaria estadual de Saúde e pela Fundação Oswaldo Cruz.

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Segundo Chieppe, a estratégia de testagem em Ilha Grande se diferencia da adotada em Paquetá, bairro insular da capital do estado, que foi alvo de um experimento científico da Secretaria municipal de Saúde, do Ministério da Saúde e da Fiocruz no mês passado. Em Paquetá, a maior parte dos moradores, inclusive crianças e adolescentes, fará exames sorológicos de IgG e IgM antes e depois do “dia D” de vacinação, de modo a avaliar o impacto da vacina nos índices de anticorpos da população. Já os residentes de Ilha Grande só serão examinados após tomar a vacina, e apenas os maiores de idade farão o teste.

O foco do estudo em Angra dos Reis é identificar com especial atenção os anticorpos anti-proteína S, o que, de acordo com Chieppe, permite que a testagem aconteça apenas após a imunização em massa. A previsão é que os resultados sejam divulgados 15 após a realização dos exames.

— Vamos fazer os testes de IgG e IgM, mas também de anticorpos anti-proteína S, uma proteína específica desenvolvida após a vacinação. Pela presença desses anticorpos, será possível saber quem produziu anticorpos com a vacina e quem não — explica o secretário.

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As imunoglobulinas das classes G e M (respectivamente, IgG e IgM) são anticorpos produzidos pelo corpo em reação à presença de um agente estranho, como o vírus SARS-Cov-2. Via de regra, a IgM é a primeira defesa gerada pelo organismo após a exposição ao patógeno, de modo que sua presença no sangue pode significar que a doença ainda está em sua fase ativa. Já a IgG, conhecida como anticorpo de memória, surge posteriormente e confere proteção de longo prazo contra aquele agente. Sua presença pode indicar, portanto, que o corpo teve contato com o patógeno, embora a doença já possa ter passado.

Para o mutirão foram mobilizados 60 profissionais da secretaria municipal de Saúde, além do apoio de colaboradores de outras pastas e da Secretaria Estadual de Saúde. A prefeitura montou um ponto de vacinação fixo na Casa da Cultura da Vila do Abraão. Realizam aplicação volante  as equipes de saúde da família (ESF) Provetá,Marítima,Araçatiba e Enseada das Estrelas, com foco nas praias que não têm unidades de saúde. A orientação da prefeitura é que os moradores entrem em contato com os seus agentes comunitários de saúde (ACS) para obter mais informações.

Parte de Angra dos Reis, Ilha Grande fica na Costa Verde do Rio e é um dos paraísos turísticos do estado. Ela tem uma população residente estimada de 5530 pessoas, sendo 4560 maiores de 18 anos. Com belas paisagens e praias, a ilha recebe diariamente muitos turistas. Para garantir que apenas os moradores sejam imunizados, é necessário apresentar documento de identificação com foto, CPF e comprovante de moradia na Ilha Grande.

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Segundo a prefeitura, até esta sexta-feira, 1.017 moradores de Ilha Grande tinham recebido a primeira dose da vacina, e 1.043 receberam as duas. A região acumula 532 casos da Covid-19 e 11 óbitos.

Em todo o município de Angra dos Reis, já foram aplicadas mais de 80 mil doses, sendo 21.936 pessoas já com o esquema vacinal completo. O calendário municipal prevê aplicar ao menos uma dose para todos acima de 25 anos até o fim do mês de julho.

Segundo o último boletim epidemiológico do governo do estado, o município de Angra dos Reis está classificado com risco moderado para a doença. Dos indicadores que são usados para calcular o risco, os que mais preocupam para a cidade é a taca de positividade para o coronavírus e a taxa de ocupação de UTI.

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O acesso a unidades de terapia intensiva, inclusive, é um dos maiores gargalos da região de Saúde da Baía de Ilha Grande — composta por Angra, Mangaratiba e Paraty. São apenas 25 leitos de UTI localizados em Angra, que estão atualmente com 52% de ocupação.

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